sexta-feira, 13 de março de 2009

Miguel Marques

CONFISSÃO À PAREDE
por Miguel Marques

Hoje está atrasada. Os malvados nunca vêm à tabela. Se calhar perdeu o das nove e teve de esperar pelo das dez menos um quarto. Quando não vem, telefona a avisar. Hoje ainda não ligou, portanto deve vir. Deus queira que não tenha acontecido nada. Já tinham dado nas notícias. Eles dão sempre. Ainda antes de ontem caiu uma catenária e morreram não sei quantas pessoas. O comboio descarrilou e apareceu o chefe da estação a falar. Esse não morreu. Os malvados vêm sempre com atraso. Acho que foi um rápido. A sorte foi que iam poucos passageiros, mas, mesmo assim, ainda morreram uns quantos. Deve ter-se atrasado. Se calhar ligou e não dei por nada. O mais certo é ter-se atrasado. Nunca se esquece. Nove e meia, o mais tardar, telefona. No outro dia trouxe-me um aquecedor eléctrico, daqueles que se ligam à corrente, porque diz que faz mal acender a braseira em casa, mas não me habituo a ele. Como não tenho as brasas, ponho a manta nos joelhos ou aqueço os pés com o saco de água quente. Nesta altura, as noites são tão frias que me enregelam as mãos e a barriga das pernas. Uso meias de lã mas o frio perpassa a roupa. Perpassa tudo, este frio.

Este conto continua na edição impressa do número 28 da Revista 365.

Miguel Marques nasceu em Lisboa em 1978, cursou Psicologia derivado a um erro de preenchimento dos impressos e encontra-se, actualmente, empregado a título precário num projecto de intervenção social. Falhou uma brilhante carreira política. Entrementes, foi forcado em Barrancos, seringueiro na Amazónia, bate-chapas em Moscavide, traficante de armas na Rodésia e guia de excursões entre Tânger e Gilbraltar. Tem contos publicados nas antologias Revista 365 – Os Primeiros Anos (CoolBooks, 2004) e em duas colectâneas Jovens Escritores (101 Noites, 2005 e 2006). É autor deste blogue.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Luís Graça

A MULHER QUE SOFRIA MUITO COM AS RECORDAÇÕES MUSICAIS
por Luís Graça

Tudo lhe doía.

Desde “There will never be another you” (Art Pepper, 6 minutos e 9 de sexo oral feito por um ex-namorado que emigrou para a China comunista) até “The flight of the bumble-bee”, de Rimsky-Korsakov, pela voz do violino de Nigel Kennedy (um antigo colega de Faculdade que a sodomizou numa noite de temporal, para depois se ir gabar do feito para o Cais do Sodré, no “British Bar”).

A sua vida era um vendaval de desilusões amorosas, sempre acompanhadas de recordações musicais que funcionavam como guarnições indigestas para um “à la carte” do sofrimento afectivo. Pobre coração ávido de melodia!

A virgindade foi-se num fim de tarde esquisito, o céu plúmbeo de indecisões micro-climáticas. Os passarinhos desconfiados dos reformados que lhes atiravam com pão, os cães de dentes arreganhados para as crianças que brincavam à volta do coreto. A banda tocava a trilha sonora de “A golpada”, ela e Joaquim escondidos num recanto fétido, (mal) frequentado por ratazanas mafiosas que dominavam a zona. Não teve tempo para pensar. Joaquim agarrou-lhe os ombros com manápulas férreas de erecção acumulada, atirou-a contra a parede do coreto e a natureza seguiu o seu curso. Não foi violação porque ela estava demasiado entontecida para manifestar de forma expressa a sua desilusão com Joaquim. Em vez de 24 rosas, 20 centímetros. Ao invés de “amor, quero entrar em ti”, lá vai alho.

Este conto continua na edição impressa do número 28 da Revista 365.

Luís Graça é jornalista e escritor. Tem publicado «15 Desatinónimos para Fernando Pessoa», «De Boas Erecções está o Inferno Cheio» e «A Mulher que Fazia Recados às Putas e mais contos perversos», de onde retirámos «A mulher que sofria muito com as recordações musicais», que publicamos neste número.



A Mulher que Fazia Recados às Putas
e mais contos perversos
(Lewisgrace, 2007)

segunda-feira, 9 de março de 2009

Rui Manuel Amaral

HISTÓRIA DO DITO CUJO
por Rui Manuel Amaral

Se eu quisesse, podia contar muitas histórias sobre o dito cujo. Mas basta esta, a primeira que me vem à cabeça. Um belo dia, após uma bela noite de sono, o dito cujo abriu os olhos, levantou-se da cama, dirigiu-se ainda meio ensonado ao quarto de banho, olhou para o espelho e, oh!, fez uma careta terrível! Caramba, a terrível careta que ele fez! E depois disse: “Xanto Deux, o gue agontexeu à minha gara? Parexo o Gregor Xamxa.” O que significa: “Santo Deus, o que aconteceu à minha cara? Pareço o Gregor Samsa”, mas ele pronunciava mal as palavras, por causa daquilo que acontecera à sua cara durante a noite. E é tudo.

Esta é uma das microficções da série Cinco Histórias Nocuturnas, de Rui Manuel Amaral, que publicámos no número 28 da Revista 365.

Rui Manuel Amaral nasceu no Porto, em 1973, cidade onde vive. É coordenador literário da revista aguasfurtadas. É autor de «Caravana», editado pela Angelus Novus. É autor deste blogue.



«Caravana», de Rui Manuel Amaral, no «Ler+, Ler Melhor»


Um trailer, do livro «Caravana»

sexta-feira, 6 de março de 2009

Ana Queiroz

OS DOIS CARAS DE CAVALO
por Ana Queiroz

As minhas pernas assemelhavam-se, fustigadas e pesadas, quase em papa, às dos cavalos que corriam à minha frente. Eram os segundos invasores em pouco tempo, admitindo que me falaram de coisas reais e que estive longe de línguas fantasiosas, errantes, etc, etc, daquelas espalhadas pelos cantos escuros da Cidade, onde normalmente parava... Mas esta parte não me interessa assim tanto; ou melhor, tento perceber agora o que me interessa e o que vou pôr de parte (1- não me posso esquecer do nevoeiro)... Vou começar de novo. A tremura que sentia no corpo era parecida com a dos cavalos que chegavam mas só podia justapô-las com razão se os animais fossem mais velhos ou se estivessem tão cansados como eu. Por algum motivo, olhava mais para os cavalos que para as silhuetas que os montavam; e eram muitos, apesar de parecidos, e de um conjunto de massas muito juntas, eram às centenas.

Este conto continua na edição impressa do número 28 da Revista 365.

Ana Queiroz tem 21 anos, frequenta o último ano do curso de Cinema na Escola Superior de Teatro e Cinema. Foi seleccionada entre os Jovens Criadores de 2008 na categoria de Literatura e, no futuro, deseja trabalhar nessa área, bem como na de Cinema.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Pedro Miguel

ANOTHER ONE BITES THE DUST
por Pedro Miguel

J'ai faim! Merde, j'ai faim! Era com esta lembrança de um filme francês, ou pelo menos a sentir uma convicção parecida com a de alguém num cenário amarelo torrado, em mangas de camisa, perigosamente ao pé da salamandra, (o que não acontecia no filme, mas também não importava porque como já foi referido, era mais uma convicção parecida, que outra coisa) com a barba por fazer, com a devida consequência de lhe causar comichão, que Elliot se debatia à uma da manhã numa noite de Inverno (Novembro… pode ser?) de segunda para terça. Deixar o conforto do lar para ir buscar alimento era algo que o incomodava muito, mesmo fazendo o esforço para se sentir pré-histórico e encarar aquilo como uma aventura.

Este conto continua na edição impressa do número 28 da Revista 365.

Pedro Miguel nasceu em Viseu, há 33 anos. Escreve. Certas noites, independentemente da fase da lua, transforma-se no dj Schmeichael e mete música. Tem este blogue.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Daniel Galera

TIROTEIO
por Daniel Galera

Eu tava no bar do Zé comendo uma coxinha de galinha e tomando uma cerveja, nada que eu já não tivesse feito antes. Havia, como de praxe, meia dúzia de pescadores bêbados atirados pelas mesas, uns rindo da cara dos outros, outros jogando dominó, um último cambaleando entre duas mesas de sinuca, coçando o rosto inchado. E meio que do meu lado, a pouco mais de um metro, um outro pescador, maior que todos os outros, mais feio que todos os outros, sacudindo graciosamente um carrinho de bebê dentro do qual havia um bebê. O carrinho era novo, o bebê era branquinho, limpo, sorridente e silencioso. Eu já tinha visto muita coisa estranha no bar do Zé pra me espantar com um carrinho de bebê com um bebê dentro, no meio daquele boteco escuro, velho, ocupado exclusivamente por homens rudes, grotescos, a maioria miseráveis, todos bêbados. Continuei mastigando minha coxinha. Mas a presença do bebê começou, finalmente, a me causar uma certa estranheza, e eu tirei os olhos do balcão para encarar aquele pequeno ser nos olhos.

Este conto continua na edição impressa do número 28 da Revista 365.

Daniel Galera nasceu em São Paulo, em 1979. É escritor e tradutor. Tem publicado em Portugal o romance «Mãos de Cavalo» (Caminho, 2008). É também autor de «Até o dia em que o cão morreu» (Livros do Mal, 2003, e Companhia das Letras, 2007 – posteriormente adaptado ao cinema com o nome «Cão sem dono» e realizado por Beto Brant e Renato Ciasca) e «Cordilheira» (Companhia das Letras, 2008), além do volume de contos «Dentes Guardados» (Livros do Mal, 2001), de onde retirámos «Tiroteio» («Dentes Guardados» está disponível em linha, através do sítio do autor).



Mãos de Cavalo (Caminho, 2008)



Cordilheira (Companhia das Letras, 2008)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Mário Bruno Pastor

O CAMINHO PARA WEIMAR
por Mário Bruno Pastor

Tínhamos perdido. Ao fundo, roncando aos solavancos, afastava-se o comboio lento. Estava macerado pela exposição solar de quase quatro anos sem restauro. Dentro dos vagões, amontoados uns sobre os outros, ombros caídos, os últimos camaradas sobreviventes que tinham conseguido embarcar em Sedan fitavam o cais de embarque. Ninguém nos acenava, não havia sorrisos e Eric, a meu lado, ressentido pelo atraso e pela indiferença dos que partiam, dizia-se transparente.

Era inútil esperar por um novo transporte. Aquele tinha sido o último comboio a partir para leste, daqui em diante as fronteiras seriam reentregues às autoridades francesas, e estas iriam fechá-las para sempre. O melhor seria caminhar. Mesmo tendo que percorrer os quase 500 quilómetros que nos separavam de Weimar, ainda havia tempo para chegar a casa antes do Natal.

Este conto continua na edição impressa do número 28 da Revista 365.

Mário Bruno Pastor nasceu no Porto em 1976. Padece de bissextismo e custa-lhe a aceitar que existam calendários para os anos vindouros. A par disso tem publicado poesia em edições literárias colectivas.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Finalmente, o número 28


Textos de Alexandre Andrade, Ana Queiroz, Daniel Galera, Elizabete Patrícia Andrade, Izet Sarajilic, Luís Graça, Marcelo Moutinho, Mário Bruno Pastor, Miguel Marques, Pedro Miguel, Pedro Santo e Rui Manuel Amaral.

Postos de venda, na coluna da direita, bem como a informação para quem queira participar no próximo número.

sábado, 18 de outubro de 2008

O número 27



E pronto. O parto correu bem, obrigado – e a nova 365 já cá está fora.

Textos de: António Martinho, Cláudia Matos Silva, Elisabete Patrícia Andrade, José Eduardo Agualusa, José Luís Peixoto, Luís Graça, Luísa Cardita, Mário Bruno Pastor, Mia Couto, Miguel Marques, Pedro Martins, Pedro Santo, Rui Manuel Amaral, Rui Lage e valter hugo mãe.

Ilustrações e fotografias de: Agan Harahap, Alex Gozblau, Ângela Berlinde, Catarina Limão, Gonçalo Franco, Leonor Inverno, Micael Póvoa e Rita Lino.

O design é do Alex Gozblau.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

O Número 27



E pronto, o Número 27 da Revista 365 está em fase de impressão e, no dia 17, estará nas bancas.

domingo, 24 de agosto de 2008

John Almeida

O VERÃO ACABOU
por John Almeida

Passei o Verão numa espécie de luto. Agradavelmente afogado nas minhas mágoas, num prazer privado de sofrer.

Na minha imaginação, liderava um cortejo fúnebre infinito, desfilando pelas avenidas e praias repletas de gente que sorria e que vivia uma vida melhor do que a minha.

Com esta disposição miserável, arrastei-me pelo Verão como se nada nele fosse verdadeiro: nem o sol, nem o calor, nem a cidade. Consegui que o meu pequeno mundo se tornasse num universo, expansível e denso.

Todos os dias me sentava no mesmo bar, na praia; uma monstruosidade de vidro e metal, que cheirava a protector solar e a café queimado. Todos os que me rodeavam pareciam estar noutro plano de existência, envoltos numa névoa, como se fossem ilusões de óptica. Gente morena, seminua, conversadora, e profundamente irritante. (...)

Este conto continua na edição impressa do número 26 da Revista 365.

John Almeida nasceu em Londres em 1973. É formado em argumentismo pela Vancouver Film School. É escritor, argumentista e músico na banda LittleFriend.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Rui Lage

ESPANTO
por Rui Lage


Os pardais dispararam das heras
a coberto da noite
que tacteava na lenha.

Primeiro o rufar das pequenas asas,
um estertor, uma arritmia, depois
as salvas secas
enquanto rodei sobre mim
o tempo de pressentir a sombra
que partiu com eles em busca de longe

(de bosque em bosque
de fonte em fonte
e de prado em prado).

Poema publicado no número 26 da Revista 365 com uma ilustração de Nuno Maçarico.

Rui Lage é tradutor e poeta. Nasceu no Porto, em 1975. O poema que publicamos nesta edição, «Espanto», foi extraído do volume «Berçário», editado pelas Quasi em 2004. A sua mais recente colectânea de poemas chama-se «Revólver» e foi editado também pelas Quasi, em 2006.



Berçário, 2004


Revólver, 2006

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Fernando Ribeiro

LÚCIFER E LILITH
por Fernando Ribeiro

Viram-se pela primeira vez de dia, na manhã da praia. Por entre as famílias felizes, redondas das merendas. À vista das crianças que pingavam sal na água da pele. À sombra das rochas de argila entranhada, despenhando-se, cinzenta, nas areias sedentas.

Olharam-se encandeados do zénite do Sol. As famílias dormiam, ruminantes. As crianças desapareciam no mar entre gritos e surdinas. As rochas mutilavam-se de ervas secas, cardos e insectos chocando na confusão das vidas intensas.

À tarde não foram vistos por ninguém. (...)

Este conto continua na edição impressa do número 26 da Revista 365.

Fernando Ribeiro é vocalista, letrista e alma da banda Moonspell, tendo publicado vários livros de poesia, o último dos quais «Diálogo de Vultos», editado pelas Quasi em 2007.

Neste vídeo, Fernando Ribeiro faz uma visita guiada ao Inferno, o estúdio dos Moonspell.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Mário Bruno Pastor

PONTO DE FUGA
por Mário Bruno Pastor

Emília voltou a colocar os óculos, fitou de novo o relógio, apertou as mãos e levantou-se lentamente. O chefe de estação sorriu-lhe, mas ela, como sempre, desprezou-lhe a cumplicidade. No caminho de volta, agarrada à grande bolsa de renda, notou que as fraldas do vestido e as mangas do casaco de peles estavam rompidas e um pouco sujas. Por um lado tinha sido melhor ele não ter regressado hoje, teria que estar com outro aspecto para o receber, precisava de um vestido limpo e mais resplandecente. Levou as mãos à cabeça e firmou melhor o alfinete do chapéu. Ao fundo da rua, tenuamente iluminado pelo candeeiro eléctrico, um homem de sobretudo, acompanhado por uma rapariga, caminhava falador. Seria Gustav? Emília estremeceu, rebuscou a bolsa e retirou os óculos, aproximou-os dos olhos. Não, era apenas um homem e Gustav voltaria no verão. (...)

Este conto continua na edição impressa do número 26 da Revista 365.

Mário Bruno Pastor nasceu no Porto em 1976. Padece de bissextismo e custa-lhe a aceitar que existam calendários para os anos vindouros. A par disso tem publicado poesia em edições literárias colectivas.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Luísa Cardita

ENTÃO VOLTASTE
por Luísa Cardita

É.
E então como foi, quero ouvir tudo primeiro.
Como foi... Foi...
Sabes como é. Está calor cá, frio e chuvas lá. Sempre. E vice-versa.
Cheguei e cresci: Couch surfing. All alone pela primeira vez.
A cidade apareceu cinzenta entre as nuvens. Mas isso já sabia. Prevenida. Tudo passou muito rápido. Num instante estava eu, com a mochilona, numa fila para apanhar um autocarro que me levasse até ao centro. Dois americanos, um casal, queriam saber onde se comprava os bilhetes, se era ao condutor ou onde era. Aqueles seguiam o protótipo, não falavam mais nenhuma língua. Lá expliquei que era por ali, naquelas máquinas. Como funcionam? Pronto, eu mostro-vos lá como funciona. Olhei para trás: lá vinha o autocarro, lá ia o autocarro. Mais 50 minutos à espera do próximo. E estava frio. Em Julho. (...)

Este conto continua na edição impressa do número 26 da Revista 365.

Luísa Cardita tem 22 anos e anda por aí a espreitar às janelas. É uma nulidade a dizer mentiras excepto quando escreve. Tem um gato preto, mas isso não quer dizer nada.