CONFISSÃO À PAREDE
por Miguel Marques
Hoje está atrasada. Os malvados nunca vêm à tabela. Se calhar perdeu o das nove e teve de esperar pelo das dez menos um quarto. Quando não vem, telefona a avisar. Hoje ainda não ligou, portanto deve vir. Deus queira que não tenha acontecido nada. Já tinham dado nas notícias. Eles dão sempre. Ainda antes de ontem caiu uma catenária e morreram não sei quantas pessoas. O comboio descarrilou e apareceu o chefe da estação a falar. Esse não morreu. Os malvados vêm sempre com atraso. Acho que foi um rápido. A sorte foi que iam poucos passageiros, mas, mesmo assim, ainda morreram uns quantos. Deve ter-se atrasado. Se calhar ligou e não dei por nada. O mais certo é ter-se atrasado. Nunca se esquece. Nove e meia, o mais tardar, telefona. No outro dia trouxe-me um aquecedor eléctrico, daqueles que se ligam à corrente, porque diz que faz mal acender a braseira em casa, mas não me habituo a ele. Como não tenho as brasas, ponho a manta nos joelhos ou aqueço os pés com o saco de água quente. Nesta altura, as noites são tão frias que me enregelam as mãos e a barriga das pernas. Uso meias de lã mas o frio perpassa a roupa. Perpassa tudo, este frio.
Este conto continua na edição impressa do número 28 da Revista 365.
Miguel Marques nasceu em Lisboa em 1978, cursou Psicologia derivado a um erro de preenchimento dos impressos e encontra-se, actualmente, empregado a título precário num projecto de intervenção social. Falhou uma brilhante carreira política. Entrementes, foi forcado em Barrancos, seringueiro na Amazónia, bate-chapas em Moscavide, traficante de armas na Rodésia e guia de excursões entre Tânger e Gilbraltar. Tem contos publicados nas antologias Revista 365 – Os Primeiros Anos (CoolBooks, 2004) e em duas colectâneas Jovens Escritores (101 Noites, 2005 e 2006). É autor deste blogue.
por Miguel Marques
Hoje está atrasada. Os malvados nunca vêm à tabela. Se calhar perdeu o das nove e teve de esperar pelo das dez menos um quarto. Quando não vem, telefona a avisar. Hoje ainda não ligou, portanto deve vir. Deus queira que não tenha acontecido nada. Já tinham dado nas notícias. Eles dão sempre. Ainda antes de ontem caiu uma catenária e morreram não sei quantas pessoas. O comboio descarrilou e apareceu o chefe da estação a falar. Esse não morreu. Os malvados vêm sempre com atraso. Acho que foi um rápido. A sorte foi que iam poucos passageiros, mas, mesmo assim, ainda morreram uns quantos. Deve ter-se atrasado. Se calhar ligou e não dei por nada. O mais certo é ter-se atrasado. Nunca se esquece. Nove e meia, o mais tardar, telefona. No outro dia trouxe-me um aquecedor eléctrico, daqueles que se ligam à corrente, porque diz que faz mal acender a braseira em casa, mas não me habituo a ele. Como não tenho as brasas, ponho a manta nos joelhos ou aqueço os pés com o saco de água quente. Nesta altura, as noites são tão frias que me enregelam as mãos e a barriga das pernas. Uso meias de lã mas o frio perpassa a roupa. Perpassa tudo, este frio.
Este conto continua na edição impressa do número 28 da Revista 365.
Miguel Marques nasceu em Lisboa em 1978, cursou Psicologia derivado a um erro de preenchimento dos impressos e encontra-se, actualmente, empregado a título precário num projecto de intervenção social. Falhou uma brilhante carreira política. Entrementes, foi forcado em Barrancos, seringueiro na Amazónia, bate-chapas em Moscavide, traficante de armas na Rodésia e guia de excursões entre Tânger e Gilbraltar. Tem contos publicados nas antologias Revista 365 – Os Primeiros Anos (CoolBooks, 2004) e em duas colectâneas Jovens Escritores (101 Noites, 2005 e 2006). É autor deste blogue.
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